4# ECONOMIA 5.2.14

     4#1 A CULPA NO  DO DLAR
     4#2 A CONTA UM DIA CHEGA

4#1 A CULPA NO  DO DLAR
Antes os pases emergentes criticavam o tsunami cambial dos ricos, agora dizem que a turbulncia se deve  seca monetria.
MARCELO SAKATE

     H apenas dois anos, a presidente Dilma Rousseff se queixava do "tsunami cambial'' causado pela poltica de juros baixssimos e outros estmulos monetrios dos pases ricos. O governo brasileiro decidiu tributar a entrada de capital estrangeiro para conter a valorizao do real. Agora, entretanto, a queixa parece ser outra. O governo brasileiro, em coro com as autoridades econmicas de outros pases em desenvolvimento, deu de responsabilizar a gradual  e previsvel  reduo na oferta de dlares nos Estados Unidos pela turbulncia na moeda dos pases emergentes. Na semana passada, o Federal Reserve, o banco central americano, fez uma nova reduo, de 10 bilhes de dlares, no montante de ttulos que compra mensalmente no mercado americano. Na prtica, isso significa mais um passo no fechamento da torneira da liquidez. 
     A ao era esperada. A retomada na economia d sinais contnuos de ter ganhado corpo. Tambm na Europa comeam a surgir indicativos de recuperao. Como resultado, os capitais internacionais passam por uma fase de rearranjo. Deixam os pases emergentes como o Brasil, a Turquia e a ndia, cujo ritmo de atividade entrou em uma fase frustrante, e retornam para os Estados Unidos e os pases europeus. No mercado brasileiro, a cotao do dlar subiu a 2,43 reais, o valor mais alto desde agosto. Para tentarem conter a fuga mais intensa de capitais, os bancos centrais da Turquia, da ndia e da frica do Sul decidiram subir a taxa de juros.  uma reao semelhante  j executada anteriormente pelo BC brasileiro. 
     Em comum, todos esses mercados ficaram mais vulnerveis, nos ltimos meses, aos olhos dos investidores. Cada um ao seu modo, esses pases descuidaram do combate  inflao e mantiveram a taxa bsica de juros em patamares historicamente baixos, incentivando o consumo e, por algum tempo, inflando o crescimento do PIB. Essa poltica, entretanto, combinada ao relaxamento no controle das finanas pblicas, traz desequilbrios econmicos crescentes, sobretudo na forma de alta de preos e aumento do dficit das contas externas. Trata-se de um modelo insustentvel  a menos que o objetivo seja bailar ao tango tristonho de uma crise como a argentina. "Por mais que existam diferenas do Brasil em relao a naes como a Argentina e a Turquia, as condies do mercado internacional j no so as mesmas", afirma Srgio Vale, economista-chefe da consultoria MB Associados. "Deixou de existir a boa vontade com o pas vista at recentemente." 
     O volume de dlares que deixa o Brasil passou a ser superior ao total que aqui aporta. No ano passado, saram 12,3 bilhes de dlares, o pior resultado desde 2002. Com reservas de 376 bilhes de dlares, o pas tem cacife para manter as intervenes no mercado de cmbio, a fim de amenizar a desvalorizao do real. O gestor de recursos Will Landers, responsvel pelos investimentos do megafundo americano BlackRock na Amrica Latina, resume os dilemas brasileiros: "O pas vem de um perodo prolongado, de trs anos, em que a economia cresce abaixo do esperado. Este  um ano de eleio, e ningum espera a aprovao de reformas. Por causa da inflao elevada, o BC est subindo os juros. O que vai mudar no curto prazo que possa animar o investidor?". 
     Na ltima semana, o grupo ingls 3i anunciou ter descartado novos investimentos no pas, citando "mudanas nas condies macroeconmicas no Brasil", como a volatilidade de mercado e do cmbio. O grupo pretendia lanar um fundo estimado em 500 milhes de dlares para investir em empresas brasileiras. Negcios deixaro de ser feitos, e a economia do pas como um todo sair perdendo. Pr a culpa no Federal Reserve no trar esses dlares de volta. 

O VEM E VAI DE MOEDAS
O cenrio deixou de ser favorvel aos chamados pases emergentes, e os dlares comearam a bater em retirada.
Por que os dlares vinham...
 Crescimento mais forte nos emergentes
 Crescimento fraco nos desenvolvidos
 Valorizao das matrias-primas exportadas
 Estmulos monetrios nos EUA, expandindo a oferta de dlares

...E POR QUE AGORA ELES VO EMBORA
 Queda no crescimento nos pases emergentes
 Recuperao do crescimento nos desenvolvidos
 Freada na valorizao das commodities
 Reduo dos estmulos monetrios nos EUA

Desvalorizao em relao ao dlar (em janeiro)
Rupia (ndia) -1,2%
Real (Brasil) -3%
Lira (Turquia) -6,1%
Rublo (Rssia) -6,5%
Rand (frica do Sul) -7,7%
Peso (Argentina) -18,6%


4#2 A CONTA UM DIA CHEGA
O custo da energia no mercado de curto prazo bate recorde histrico, resultado da perigosa combinao de obras atrasadas, pouca chuva e planejamento falho.
ANA LUIZA DALTRO

     Seca em perodo de chuvas, vero excepcionalmente quente. O Sistema Cantareira, principal reservatrio de gua da Grande So Paulo, por exemplo, est com apenas 22% da sua capacidade preenchida, o seu mais baixo nvel em quase quarenta anos.  o terceiro vero seguido de chuvas abaixo da mdia histrica. So Paulo e outra dezena de capitais brasileiras podero lidar com racionamento de gua, caso as chuvas no se intensifiquem nas prximas semanas. O abastecimento de energia eltrica tambm opera no limite. Em um perodo no qual as usinas termeltricas movidas a gs e a leo deveriam estar desligadas, elas operam a todo o vapor. Como reflexo inevitvel da falta de chuvas, do aumento no consumo e da utilizao intensa das fontes emergenciais  e mais caras  de energia, o custo da eletricidade disparou. Ainda no na tarifa cobrada dos consumidores, mas no chamado mercado livre, no qual so negociados o fornecimento de curto prazo para as empresas que ainda no contrataram a totalidade do fornecimento de que necessitam. O preo atingiu a marca de 822,83 reais o megawatt-hora. 
     Trata-se de um aumento vertiginoso quando contraposto ao valor de 249,92 reais registrado na virada do ano. O preo  calculado por meio de um modelo matemtico que rene variveis como as expectativas de chuva, a vazo dos rios, a carga e o custo de operao do sistema, entre outros fatores. O resultado dessa conta determina o preo de todo o estoque de energia contido no sistema naquele momento. Quando o preo sobe, as indstrias e os demais integrantes do mercado livre (que correspondem a 27% da demanda nacional e concentram os maiores consumidores) tm as suas tarifas reajustadas. J os consumidores comerciais e residenciais contam com apenas um reajuste anual, e muitas vezes so beneficiados com descontos. Um exemplo disso foi a deciso da presidente Dilma Rousseff de promover no ano passado uma queda mdia de 20%. Vivemos a paradoxal situao de ver o preo da energia eltrica subindo mas as contas de luz permanecendo mais baratas. O prejuzo fica com as empresas distribuidoras, que compram a energia que ser repassada para o destinatrio final. Como forma de atenuar o problema, o governo oferece s companhias  com recursos do Tesouro, ou seja, do contribuinte brasileiro  emprstimos temporrios para aliviar o baque no fluxo de caixa. A dinheirama para esse fim chegou a 13 bilhes de reais no ano passado. "O preo final da energia aos consumidores residenciais e comerciais caiu no por causa de um aumento na oferta, como seria o correto, mas por uma deciso poltica'', afirma Cristopher Vlavianos, presidente da Comerc, a maior gestora independente do pas. "Os consumidores ganharam um incentivo para gastar mais, em um perodo de escassez." 
     Os brasileiros, obviamente, no podem ser responsabilizados por terem melhorado o seu padro de consumo. Se faz calor, eles tm todo o direito de ligar os seus aparelhos de ar condicionado.  o governo que no cumpriu seu dever de assegurar os investimentos necessrios. Sem a concluso de obras de transmisso atrasadas e a inaugurao de mais usinas, o cenrio ficar complicado. Segundo especialistas, s no vivemos um novo racionamento agora graas s usinas termeltricas. O custo de mant-las operando est estimado entre 1 bilho e 1,5 bilho de reais por ms. Ser mais uma conta pesada a ser paga no futuro pelos brasileiros, seja sob a forma de um aumento nas tarifas, mantidas hoje artificialmente mais baixas, seja sob a forma de mais subvenes para o setor, bancadas pelos impostos. O total gasto com tamanhos subsdios poderia na verdade estar alimentando investimentos em novas fontes. O governo, porm, preferiu abaixar o preo daquilo que no tinha a oferecer em quantidade suficiente  e agora torce para no ter de lidar com um novo e constrangedor apago. 

SEM CHUVA, O PREO DA ENERGIA DISPARA
Valor do magawatt-hora no mercado livre, em reais.
JAN 2013: 554,82
ABR 2013: 129,38
OUT 2013: 268,06
FEV 2014: 822,83
Fonte: Cmara de Comercializao de Energia Eltrica.


